Conheça a história de Masabumi Hosono - o único sobrevivente japonês do Titanic
O maior transatlântico da época, o Titanic, foi construído em março de 1909, pela companhia Harland & Wolff em Belfast, Irlanda do Norte. A construção se encerrou em 1911: 269 m de comprimento, 53,3 m de altura e 46,328 toneladas brutas, para ter uma capacidade total de 3.547 passageiros. Em abril de 1912, saiu para alto mar.
Dentre todos os passageiros do navio, estava Masabumi Hosono, um funcionário público japonês de 41 anos, que estava voltando ao seu país depois de um tempo passado na Rússia e Londres. Ele era o único de sua etnia a bordo do Titanic. Ficou hospedado na segunda classe do navio, logo abaixo do convés.
Dia 15 de abril foi fatídico para a vida de todos os passageiros. Na noite do dia 14, um iceberg rasgou silenciosamente uma parte submersa do navio, permitindo com que a água entrasse. Muitas pessoas foram acordadas às pressas para seguirem instruções: a segunda classe foi instruída a ir à parte mais profunda do Titanic, para aguardar resgate, enquanto a primeira classe deveria comparecer ao convés para entrar nos botes salva-vidas.
Hosono, em um momento de tristeza e desespero, escreveu uma carta à sua esposa e seus seis filhos. Ele descreve “todas as luzes de emergência estavam sendo lançadas no ar incessantemente e muitos flashes e sons foram aterrorizantes. Tentei me preparar para o último momento, sem me agitar e me convencer de não deixar nenhuma decisão desrespeitosa como japonês. Ainda assim, eu procurava uma chance de sobrevivência” (tradução livre do inglês). A decisão que tomou depois, mudou seu destino.
Apesar de ter sido instruído a ficar na parte profunda do navio para esperar resgate, Hosono decidiu subir ao convés com as pessoas da primeira classe. Quase todos os botes salva-vidas estavam lotados pelas mulheres e crianças, até que foram anunciadas duas vagas no bote salva-vidas número 13. “O exemplo do primeiro homem pulando me guiou para minha última chance” (tradução livre do inglês), continua na carta.
Ao caminhar para o bote 13, Hosono viu que havia espaço no bote 10 também e, no impulso, pulou para alcançá-lo. Conseguiu se manter a salvo juntamente com aqueles que estavam consigo. A parte mais complicada da viagem surgiu após sua chegada ao Japão.
Ao chegar ao Japão, Hosono se deparou com muitos repórteres. Apesar de nunca ter mandado a carta aos seus familiares, a notícia já havia se espalhado. Revistas e jornais estampavam a alegria de sua família ao vê-lo e tudo parecia estar bem por um tempo. Até que seu chefe o chamou para conversar: Hosono havia sido demitido.
Seu ato de sobrevivência foi comparado ao de um magnata que, juntamente com seu fiel servo, havia dado sua vida para dar espaço no bote para mulheres e crianças se salvarem. A população japonesa começou a vê-lo com maus olhos por seu ato de covardia – e sua linhagem estava ligada com a expectativa do povo japonês.
A família de Masabumi Hosono tinha linhagem de samurais e o fato de ele não ter dado sua vida pela situação em que estava trouxe desonra para si mesmo. As virtudes de samurais são honra, coragem, abnegação e sacrifício: tudo o que nele não havia sido expresso, ainda mais em um contexto em que o Japão se vangloriava de seu povo pelas vitórias sobre a China e a Rússia. A decisão de Hosono havia sido desonra para o patriotismo japonês.
Devido a isso, a punição decidida pela sociedade japonesa da época em questão de Hosono foi a de ostracismo social. Ou seja, provocaram o isolamento social dele e de sua família, chegando ao ponto de apresentarem sua história nas escolas como exemplo a não ser seguido. Seus filhos e esposa receberam o mesmo tratamento, ouvindo calúnias sobre Hosono, ameaças e tendo dificuldade de arranjar emprego.
Foi apenas em 1923, com o acontecimento de um terremoto na região de Kanto, que Hosono finalmente conseguiu ter um emprego novamente. Pelo resto de sua vida trabalhou em uma rede ferroviária e sua história foi deixada de lado.
Em 1997, com o lançamento do filme Titanic, o perdão nacional para Hosono também surgiu. A empatia da população, ao ver a situação em que ele estava, cresceu e seu ato foi publicamente perdoado. Infelizmente Hosono não pode aproveitar esta situação, pois em 1939, aos 68 anos, ele morreu de causas naturais.
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